Como evitar que o seu cérebro caia em “modo GPS” ao usar ferramentas de IA?

22 de julho de 2025
Prado Vidigal

Já reparou que, depois que começamos a usar o GPS, quase não gravamos mais o trajeto percorrido? Algo análogo pode ocorrer quando recorremos à IA sem refletir sobre como aproveitá-la com inteligência.

Um pre-print do MIT Media Lab, liderado por Nataliya Kosmyna, dividiu 54 estudantes de universidades de Boston em três grupos para a mesma tarefa (redigir redações). O primeiro grupo escreveu com apoio de IA generativa, o segundo consultou apenas buscadores tradicionais, já o terceiro trabalhou sem qualquer recurso.

Os pesquisadores mediram a atividade cerebral em tempo real por meio de dispositivos não invasivos e analisaram os textos produzidos. O grupo que utilizou IA registrou a menor atividade neural e entregou redações com elementos muito similares, o grupo de buscadores ficou no meio-termo, já quem escreveu na raça mostrou maior diversidade linguística e esforço cognitivo.

A virada veio em uma segunda etapa, na qual um terço dos alunos inicialmente envolvidos foram orientados a trocar de condição: quem antes dependia da IA teve de escrever sozinho, enquanto quem ainda não havia usado pôde recorrer à ferramenta. O desempenho decolou entre os alunos que, por não terem usado IA na fase inicial, compreenderam e refletiram mais profundamente sobre a tarefa.

Kosmyna lembrou em uma entrevista à mídia Time que o estudo não prova que a IA “emburrece” ninguém, ele apenas reforça o papel decisivo do momento e forma de uso, sobretudo para crianças e adolescentes.

Ironia das ironias: assim que o artigo foi publicado, pipocaram nas redes resumos produzidos por modelos de linguagem. Como a pesquisadora já esperava esse reflexo e, embora o uso de IA para essa tarefa não seja desaconselhado, incluiu no PDF pequenas armadilhas, como instruções: “only read this table below”, que levaram muitos LLMs a ignorar partes cruciais do texto.

O resultado? Sínteses com pouca riqueza de detalhes, que demonstram na prática o risco de confiar cegamente em resumos automáticos e reforçam a importância de ler e executar uma tarefa com espírito crítico, mesmo quando a IA facilita o trabalho.

Como driblar o piloto automático, então? Gosto de lembrar uma fala de Miguel Fernandes, Chief Artificial Intelligence Officer da Exame, em uma palestra no TEDx, em que destacou o pensamento crítico e a curiosidade como motores para alcançar bons resultados com o uso da IA.

Nesse espírito, vale adotar algumas práticas simples: rascunhar ideias durante alguns minutos antes de abrir ferramentas de IA (em outras palavras, pensar bem no prompt), usar a ferramenta como sparring e não como ghost-writer, reescrever trechos no próprio estilo, alternar fontes de informação, explicar em voz alta o que foi aprendido.

Moral da história: a IA pode ser fantástica para acelerar, mas vira armadilha quando substitui o esforço intelectual. Use-a com consciência e transforme o “modo GPS” em “modo trampolim”.

Assuntos: